sexta-feira, 13 de abril de 2007

A Crónica



Foi na Visão que conheci António Lobo Antunes.
Tenho ideia que antes já tropeçara nele numa das prateleiras da FNAC ou da Bertrand e conhecia alguns dados bibliográficos pela imprensa fruto da constante possibilidade do Nobel.

Mas foi a Visão que mo apresentou, numa quinta-feira ao almoço. Entre duas garfadas, lá estava eu entretido a ler a sua crónica semanal. Não foi amor à primeira vista. Estranhei. A escrita e o estilo. Para complicar a situação, não sei porquê, embirrava com o homem. Já o viram a falar na televisão? É a antítese do Marcelo. Lentamente, confesso, a estranheza levou à rotina e desta parti para o vício. Para piorar a situação, na disciplina de Língua e Literatura Portuguesa voltei a cruzar-me com ele. Aos poucos e poucos as suas crónicas começaram a fazer sentido, as suas palavras passaram a ser bebidas, religiosamente, entre dois goles de Luso e uma garfada de churrasco de frango (uma proeza do Miramaia digna de registo).

Nada disto faria sentido estar aqui não fora um simples facto. Hoje levei um murro no estômago. Daqueles fortes e imprevistos. Por artes do Diabo, só agora li a Visão desta semana. Logo na capa, uma chamada: "Lobo Antunes, uma crónica corajosa".

Hum, que coisa estranha. Bem sei que a Visão mudou de visual (assim obriga uma concorrência feroz e bastante competente da Sábado) e eu ainda não me adaptei muito a esta modernice. O que será?
Estas coisas da leitura têm os seus rituais: maço de tabaco e isqueiro à mão, cinzeiro por perto e família longe que isto é coisa feita em sossego. Ora vamos lá ver o que se passa. Irritantemente, as folhas de publicidade demoram a ser ultrapassadas. Aqui está:

"Crónica do Hospital"

Pelo título, para quem as conhece, não chego lá mas desconfio. Um fôlego chegou para a ler. Repito. As paredes do estômago colam. António Lobo Antunes esteve doente, bastante doente. Só ele nesta descrição: "o cancro ratando, ratando, injusto, teimoso, cego. Mói e mata. Mata. Mata. Mata. Mata".

Na ignorância (como foi possível que a Visão tenha passado toda a santa quinta e boa parte de sexta a passear no meu carro sem eu lhe ter dado um minuto de atenção!?) fui apanhado de surpresa. Logo agora que as suas crónicas se entranharam. Não é justo.

Mais à frente soube que o pior já passou. Alívio. Afinal vou continuar a ver o vício alimentado. A ter o prazer de tropeçar novamente em Lobo Antunes. Na Visão. Às quintas. A Crónica. Assim mesmo, em letra grande e gorda, fruto da excelência.
É na Visão que quero continuar a conhecer António Lobo Antunes.

3 comentários:

Espectadora Atenta disse...

Parabéns pelo bom gosto literário...

Manuel Ferreira disse...

O maldito cancro é mesmo assim leva tudo á sua frente: pessoas de qualquer idade, de qualquer condição.
O António Lobo Antunes é uma pessoa que come praticamente connosco à mesa, daí o nosso espanto do cancro também o ter agarrado.
Agora o que o cancro não consegue vencer é a sua obra, a sua teimosia, a sua sublimidade de pensamento.
Espero, ainda o ver por muitos anos, nesta vida, a escrever livros, e a consolar-nos com a sua experiência e conceitos de vida.

luz branca disse...

Também gosto imenso das suas crónicas. Aconselho os dois volumes de crónicas já editados.
Bom fim de semana.